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UMA FAMÍLIA ÀS DIREITAS
Improvável? Os ditadores são imprevisíveis, misteriosos,
e o doutor Salazar não escapa à regra. Não se lhe conhecem
amores, embora, ao que parece, tenha casado no maior segredo. No entanto, talvez,
iludindo a vigilância da sua governanta Maria, se tenha compadecido de uma
pobre loura, abandonada às garras de um mundo cruel como «uma vela
ao vento», e escrito, na melhor das intenções, umas quantas
missivas arrebatadas a Marilyn Monroe. Na linha dos «Diários de Hitler»,
aí está, como excelente leitura para o Verão, a «Correspondência
Amorosa entre Salazar e Marilyn Monroe», de A. Dasilva O., com a chancela
das Edições Mortas.
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Como se lê no prefácio de Angelo Novo, após a «perigosa»
eleição de Kennedy, congemina-se no Palácio de Belém
«uma manobra de envolvimento usando a famosa actriz norte-americana, cujas
relações de intimidade com o jovem presidente eleito são
conhecidas. É de imediato codificada como operação 'Tristão
e Isolda'». Salazar, zeloso da moral e dos bons costumes, questiona-se:
Mas, por que infaustos sucessos contemporâneos me caberia a mim, para complemento
da gesta dos nossos maiores, ter que pintar as unhas dos pés a essa notória
de mulher de mau porte»?
E a abordagem não foi um sucesso retumbante. É que, estranhamente,
Marilyn nunca ouvira falar de Salazar: «Vou falar-lhe com toda a franqueza,
esperando que não se melindre. Eu não o conheço de lado nenhum
e, como não gosto de números, não me dei ao trabalho de ler
o seu 'curriculum vitae'». O ditador português perseverou, enviando
até um exemplar do «Só», que a actriz por certo terá
apreciado. Aliás, Arthur MilIer parece que também o leu, mas á
socapa, claro.
«Vamos mostrar ao mundo inteiro a nossa coragem ao formarmos uma família
modelo», exorta o político português. Assim, com alguns avanços
e recuos, amadurecia nos dois correspondentes «uma poderosa afinidade electiva».
Aliás, houve quem ouvisse «o austero estadista a cantarolar 'Love
Me Do» em pleno conselho de ministros». A Nação poderia
estar à deriva, pelo que a morte de Marílyn, embora atribuída
aos tentáculos de CIA, talvez esconda uma bem sucedida operação
da PIDE. É que «o pide Oscar Cardoso foi visto a dar de comer aos
orangotangos no Zoo de San Diego».
Subsiste um mistério. Em que língua se entenderiam as duas figuras?
Em: Jornal Comércio do Porto - 27 Ago. 1997
Autor:A DASILVA O, "Correspondência
Amorosa entre Salazar e Marilyn Monroe", Edições Mortas
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